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O grande desafio de fazer vinho pela primeira vez
Antes do vinho no Dão
O vinho no Dão
Paisagem
Castas do Dão
O vinho à mesa aristocrática do Dão
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Dão, uma região inimitável

 

Dão é terra de vinho, de história e de contrastes. O terreno acidentado, onde a todo o momento se distingue um cabeço, se vê um socalco repleto de vinha e se cultiva uma terra chã, proporciona uma paisagem rica e sempre renovada. A grande montanha espreita na linha do horizonte.

Os rios e ribeiros, de águas frias e transparentes, rolam mais pedra que areia. A bacia hidrográfica do Mondego, com os rios Dão e Alva em realce, drena cerca de 95% da chuva que cai na região e imprime muito caráter aos vinhos aí produzidos.

O ar que se respira é puro e cheira a pinheiro. A gente, boa por natureza, sabe receber quem vem de fora. O acidentado do terreno, o minifúndio e o exuberante revestimento vegetal, com verde de todos os matizes, contribuem para o quase anonimato da vinha na paisagem. E, no entanto, as videiras estão lá, em número superior a 75 milhões de cepas.

As lagaretas, escavadas na dura rocha granítica, e alguns vestígios da presença romana testemunham a tradição milenar da produção de vinho na região.

A forte implantação de ordens religiosas permite atribuir aos monges agricultores da Idade Média a origem do saber com que se cultiva a vinha e fabrica o vinho no Dão. As referências à vinha e ao vinho nos forais de quase todos os concelhos e nas posturas municipais atestam a sua grande importância social, económica e religiosa ao longo da história. É este o retrato da primeira região demarcada de vinhos de pasto a ser regulamentada em Portugal, no ano de 1910.

 
 

Clima e solo, a base da identidade

 

A região é demasiado pequena para nela se sentirem grandes diferenças climáticas. O seu clima é temperado, com verões secos e quentes e invernos pluviosos e moderadamente frios. Porém, a instabilidade climática, a exemplo do que acontece um pouco por toda a Península Ibérica, é um fator determinante para a qualidade e quantidade do vinho produzido. Como se costuma dizer entre o povo, é muito vulgar o Verão passar férias no Inverno e o Inverno passear-se pelo Verão dentro. As geadas tardias do mês de Maio, as trovoadas e o granizo dos meses de Maio e Junho e as chuvas de Junho e Setembro são o terror dos viticultores do Dão, sendo responsáveis, a exemplo das grandes regiões vitícolas do Mundo, pelo baixo número de grandes colheitas por década, raramente superior a quatro.

 
 

Em contrapartida, quando o clima é de feição, com elevadas amplitudes térmicas diurnas em Setembro, que causam a vida difícil às videiras e uma maturação sofrida das uvas, os vinhos atingem uma elegância e uma concentração de aromas que os tornam inimitáveis.

O granito com grandes cristais rosados de feldspato, constitui o substrato do solo onde estão implantadas cerca de 97% das vinhas contínuas da região. A sua facilidade de meteorização pela água da chuva origina solos franco-arenosos, de baixa fertilidade e fácil drenagem, que constituem um dos segredos para a produção de uvas da mais alta qualidade.

 
 

A homogeneidade dos solos e as variações microclimáticas, fruto do acidentado do terreno, da altitude e das múltiplas exposições, não permitem expressar de forma inequívoca o conceito de terroir, sendo mais adequado falar em microzonas vitícolas, onde se produzem vinhos com o mesmo caráter mas peculiaridades distintas e emocionantes.

 
 

A paisagem e o clima moldam o estilo dos vinhos do Dão

 

Há muito que os vinhos do Dão são considerados dos mais sofisticados e emocionantes que se produzem em Portugal. Até à revolução tecnológica e técnica iniciada com os fundos de Bruxelas, no início da década de 1980, eram vinhos de lote feitos com uvas colhidas com 11 a 13 graus de álcool provável, segundo tecnologia simples e de forma minimalista. Quando bem-feitos tinham caráter, identidade e um estilo único, moldado essencialmente pelo clima da região e baixa fertilidade dos solos.

Os brancos novos eram amarelo pálido, de aroma discreto e acidez vibrante, que os tornava algo agressivos na boca, mas lhes permitia envelhecer maravilhosamente. Com o tempo de garrafa o aroma intensificava-se e ganhava enorme complexidade, a acidez dissimulava-se e emergia a elegância no mais puro estilo europeu.

Os tintos jovens eram rubi, de aroma fechado, com boa acidez e adstringência irreverente, que só brilhavam à mesa da refeição. Após envelhecimento nobre em garrafa revelavam, então, toda a sua raça, onde a sofisticação aromática, a elegância, o equilíbrio de boca, o final longo e apoteótico sempre foram imagem de marca.

A revolução vitícola e tecnológica que ocorreu no Dão desde o início da década de 1980 transfigurou os vinhos cujos múltiplos estilos, tanto dos brancos como dos tintos, passaram a ser influenciados pelo caráter das castas vinificadas individualmente (ver descrição destas) e personalidade dos enólogos ou produtores, pois o uso (ou abuso) da tecnologia e das ferramentas enológicas atuais são uma ameaça à identidade geográfica dos vinhos. A prevenção excessiva das oxidações, baixas temperaturas de fermentação e recurso à madeira de carvalho são, entre outras, práticas que terão retirado algum caráter aos vinhos do Dão, embora conferindo-lhe um estilo mais sedutor, consensual e internacional.

Alguns produtores e enólogos, atentos e preocupados com a necessidade de produzir “vinhos com sentido de lugar”, já começaram a apostar na mistura de castas, uvas com menos grau e pouca manipulação na adega, adivinhando-se em breve a recuperação plena da autenticidade do Dão.

 
 
 

castas do dão

Castas singulares para vinhos únicos.